domingo, 15 de janeiro de 2017

#UmContoPorDia Obsessão, um conto de Clarice sobre a libertação de uma mulher



    Iniciei um projeto de leitura de um conto por dia esta semana com a coletânea Todos os Contos, de Clarice Lispector organizado pelo Benjamin Moser, e Contos de Imaginação e Mistério, de Edgar Allan Poe. Essas companhias que tenho tido antes de dormir, desde quando iniciei o projeto, tem me feito perder o sono. Talvez eu deva mudar o horário da leitura dos contos. Um deles, que me deixa insone, é "Obsessão", o segundo conto de Clarice na seção Primeiras Histórias, escrito aproximadamente aos vinte anos de idade.

   Trata-se da história de formação de Cristina, a narradora do conto, que se nos apresenta uma infância comum a infância de uma menina de sua época - "Até que um dia descobriram em mim uma mocinha, abaixaram meu vestido, fizeram-me usar novas peças de roupa e consideraram-me quase pronta" - Esta prontidão certamente é para o tradicional rumo das mulheres: logo, Cristina se casa com Jaime, um homem comum, que lhe traz chocolates durante as visitas. Cristina descobre na vida de esposa a monotonia de seu papel. As conversas de Jaime com outros homens, seus amigos, sobre assuntos que ela não entendia  e por isso entediavam. Devia resignar-se a seu lugar permitido: ser mulher de um homem. Mas este conto fala sobre uma personagem que não quer ser mulher de um homem, mas uma mulher, totalmente. E encontra este caminho por força de um acaso, quando, entediada com a vida proporcionada por Jaime, finge-se de adoentada, depressiva, o que faz com que o esposo a leve para uma casa de descanso, típica do início do século passado, onde as pessoas iam para se recuperar ao redor da natureza e sob cuidados de repouso. Lá, Cristina conhece Daniel. Um filósofo.

  Aqui inicia-se um curioso fervor de elementos que remetem à Filosofia: "Daniel imaterializava tudo". Diante de uma vida materializada em tédio, ao redor da mãe costurando e do pai de cara no jornal, Cristina descobre o poder do que pode ser feito com a percepção imaterial das coisas. De início não entende o que Daniel fala, e ele por vezes zomba dela. Este zombar mais se dá por uma provocação que sabe que seu provocado vai tentar superar: Cristina então se deixa iniciar nas ideias de Daniel, descobrindo as investigações de cunho filosófico que ele apresenta a ela. Ao relatar os fatos, Cristina diz: "Hoje compreendo-o. Tudo lhe perdoo, tudo perdoo aos que não sabem se perder, aos que se fazem perguntas. Aos que procuram motivos para viver, como se a vida por si mesma não se justificasse". A vida por si mesma passa a não se justificar para Cristina bem antes de conhecer Daniel. Depois de iniciada em seus ensinamentos, aí então entra num caminho sem volta. Descobre a solidão, questiona os sentidos, os rumos.

  A respeito dos rumos, logo Cristina é levada de volta ao seio de sua família. Não ficaria para sempre naquela casa de repouso, como já sabia. E enfrenta a volta àquela vida com ódio, embora com todo o cuidado para que nem o marido, a família ou os amigos percebam. Não suporta. Daniel antes adiantara: ela voltaria para ele. "As almas fracas como você são facilmente levadas por qualquer loucura com um olhar apenas por almas fortes como a minha". E volta. Escreve uma carta de desculpas e despedida e vai ao encontro da Filosofia, não daquele Daniel, mas daquilo que a libertou para um estado do qual ela nunca mais voltaria. Tanto assim é, que ao ser recebida por Daniel, eles passam a viver juntos, e após ela se descobrir na vida de uma mulher que faz a comida e passa a roupa do homem, e ele ao se ver sendo o homem que tem uma mulher que faz sua comida e passa sua roupa, ele um homem que tudo imaterializa, e ela, uma mulher que aprendeu a tudo imaterializar, passam a não se suportar. Não é ódio o que surge, ou tristeza, mas a indiferença incômoda à vida que construíram e que estavam levando. "É preciso saber sentir, mas também saber como deixar de sentir, porque se a experiência é sublime, pode tornar-se igualmente perigosa. Aprenda a cantar e a desencantar. Observe, estou lhe ensinando qualquer coisa de precioso: a mágica oposta ao "Abra-te, Sésamo".

  Cristina, então, abraça o destino desolador do qual adianta no início do conto. Fugida da vida pequena que tinha junto à família, indo ao encontro da exploração das ideias, e se vendo novamente presa diante da ideia maior: a solidão de estar viva. Não seria ao lado daquele outro homem que ela encontraria o que buscava, porque sequer sabia o que buscar exatamente, senão meios de sentir e pensar as coisas diferente da forma reduzida à qual em toda a história de sua vida, de seu gênero fora reduzida. Decide então abandonar Daniel e voltar para sua família, seu marido. Lá, descobre que a mãe morrera, o pai viajara para longe. Apenas Jaime a aceita de volta, com uma resignação admirada por aquela mulher que o deixou por conhecer algo que ele não conhecia, e que era melhor que não conhecesse: a solidão, a tristeza, a profundeza que as ideias poderiam alcançar. Melhor então seria sobreviver assim; recebendo as ligações do marido ao fim das tardes, esperando os chocolates que ele traria do trabalho. Talvez diante de alguém que não conhecia a solidão, a tristeza, ela se distraísse de alguma forma dessas verdades que outrora enxergara para nunca mais esquecer, de sua obsessão.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

#DesafioLivrosBR Janeiro: Caetés, de Graciliano Ramos ou Como ler ficção?




   Atualmente estou começando o #DesafioLivroBR, proposto pelo site 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer, e o item referente ao mês de Janeiro é "Livro de Estreia". Escolhi Caetés, de Graciliano Ramos. Outro dia talvez eu escreva algo sobre o livro. Agora quero apenas levantar alguns apontamentos que me vieram entre minha última leitura que finalizei ontem, que foi de O Lugar Sem Limites (Cosac Naify, 2013), de José Donoso, e de minha atual, que comecei hoje.

    Eu, como muitos outros viciados (qual outro termo seria mais preciso?) em Literatura pensamos constantemente em livros e o que os circundam - seus autores, as editoras, as traduções, críticas, etc - e diante de um campo vastíssimo de tantos outros leitores donos de blogs e vlogs sobre leituras, percebi a sede atarantada pelo número de livros lidos. A-quantidade-de-livro-lidos é um pensamento que habita de vez em quando o imaginário de todo leitor compulsivo. Seja pela insuperável injustiça da vida ser muito curta (e o tempo que temos para aproveitar dela) para todos os livros que queremos ler, seja por puro impulso vaidoso, seja por pura fome insaciável, não paramos de ler. Um livro segue atrás do outro, mal tivemos tempo de digerir bem o último. Nessa, penso na onda dos canais de resenhas literárias. Eu mesmo, uma vez, pensei em fazer um desses. Mas daí a vergonha na cara bateu, e diante de tudo o que eu via, não me instiguei a ir adiante da maré do mesmo que há no Oceano Youtube: pessoas que leem livros e pouco ou quase nada tem a acrescentar além de um resumo meio torto da história do livro. Penso na possibilidade de isso se dar pela necessidade de vídeos curtos, ou, e isso é o que me assusta, no pouco aproveitamento que aquele leitor porta voz de sua leitura teve do livro. Não vou me aprofundar e escrever um artigo sobre as nuances que diferenciam os tipos de leitores.

    Mas penso no meu processo de entrada em uma nova leitura de ficção. Primeiro que é muito difícil conter os modos quando se está com muita fome diante do prato, e já falei antes que o vício em leitura é uma sede (ou fome) insaciável. No prefácio de Elizabeth Ramos na edição da Editora Record (2013) de  Caetés, de Graciliano Ramos, lemos
Caetés é um livro da cidade, da cidadezinha do interior, com a sua vida alimentada no fuxico cotidiano pelo literato fracassado, pelo marido enganado, pelo farmacêutico sórdido, pelo médico complicado, pelo promotor imbecil, pelo padre ignorante, pelo beberrão, pelas beatas, pelas prostitutas, pelo assassino inocentado e pelas mulheres histéricas. Romance de uma sociedade mesquinha, de gente selvagem, ligeiramente polida por uma tênue camada de verniz vista pelo olho irônico do observador. Imagens feias que recriam um ambiente feio e asfixiante, de sossego sufocante, que se alimenta da vida alheia, da mesma forma que os caetés se alimentavam de carne humana.

   Mesmo no caráter de um texto de prefácio, o escritor nos oferece seu estilo, e nos convida a nos deixarmos ser conduzidos por ele: é preciso entender o compasso dessa dança oferecida por quem escreve para que a gente consiga dançar junto. O excesso de adjetivos, os poucos fechamentos de frases por pontos finais, a força das imagens que o escritor nos mostra para guiar nossa imaginação, nossa abstração.  Lendo o prefácio de Caetés, sei que não lerei o último livro que li antes de começar Caetés: é outro livro, pertencente a outro período da literatura, vindo de um outro contexto socio-histórico. E estamos ainda no prefácio, na beira do precipício, ainda não nos jogamos no abismo. Abismo: há livros que são verdadeiros abismos. Neles, não se cai de olhos fechados, mas completamente abertos, os ouvidos atentos para ver as imagens, para ouvir as entrelinhas que sussuram: quem ouvir o que elas querem dizer, ganha um novo caminho dentro da obra. E muito deste processo não se faz apenas enquanto se lê. Muito dele faz parte do processo digestório que se prolonga depois de lida a última frase da obra. Embora eu possa ser um leitor que nunca esteve diante da realidade sobre a qual Graciliano Ramos constrói sua ficção, no texto temos todas as pistas para que possamos enxergar a aridez da terra refletida na aridez dos personagens.

   Sinto falta de leitores que mostrem o que há além do que é lido. Que mostre o que é lido também superficialmente, mas que tenham a paciência, a disposição (pois é isso o que falta à nossa vaidade de leitores compulsivos: paciência e disposição) para abrirem os olhos durante a queda no abismo do texto, desprendendo as tensões das ideias, sem medo de associa-las, entregando-se quase religiosamente, como um protestante que lê emocionado a vida de Jó e encontra ali uma história real, que a impacta, e se deixa atingir por algo que "aconteceu". O que nos separa é esse "quase" na minha proposta de leitura de caráter religioso: sabemos que ali o que lemos é ficção, e é, mesmo que realista, uma construção do autor através de seu processo criativo, e que a isso nos foge acreditar que aconteceu de fato, mas não nos foge nos abrirmos para nos deixarmos ser atingidos imensamente pela obra. Não que ela vá nos transformar ou melhorar ou salvar. A arte não está aí para isso. Mas está aí certamente para ser consumida, e esse consumo não precisa ser pobre se há diante de nós a possibilidade de um consumo rico.

   Virgínia Woolf é uma de minhas autoras prediletas. Acho que repeti isso ao menos uma vez em cada postagem que falo sobre ela. Acontece que ouvindo pessoas que tentaram ler alguma de suas obras e não conseguiram, deparo-me exatamente com a falta desse processo de imersão na proposta do autor. É preciso antes entender que essa imersão é um processo. O que Virgínia quis mostrar com seu estilo, com esse tal fluxo de consciência? Por que ela está ponto na cena uma mariposa que tenta relutantemente entrar através da janela fechada por sua coberta de vidro? O que isso tem relação com o texto? E Graciliano, por que tão direto em sua escrita? O que há de sua sobriedade, de seu estilo conciso com seus personagens? Por que esses tipos de personagens em seus romances? Diante de tantas situações que esses autores poderiam criar, por que foram essas as do texto que eles escolheram criar? O processo de leitura é tortuoso. Embora nunca possamos saber o que Shakespeare achava realmente de Hamlet, podemos tirar coisas além do enredo do texto. O mesmo se dá com as outras leituras. Quanto mais espaço ela nos proporciona para que a fruição possa acontecer, mais rica, a meu ver, é a obra para mim.


    Não é preciso que sejamos pesquisadores acadêmicos de Literatura para que possamos fazer uma boa leitura de um texto.  Acredito num processo de leitura criativa, onde o leitor abre um espaço de receptividade para o texto, material também de um processo criativo, construindo mutuamente  o jogo das significações. Tal espaço só é possível ser feito a partir do prazer. A partir dele podemos buscar fontes externas ao textos, estudos, críticas, textos de apoio, etc. Em Teoria da Literatura, Uma Introdução, Terry Eagleton reafirma nossas velhas certezas: "A razão pela qual a grande maioria das pessoas lê poemas, romances e peças está no fato de elas encontrarem prazer nesta atividade, Tal fato é tão óbvio que dificilmente é mencionado nas Universidades. [...] Um sintoma dessa curiosa situação é o fato de a palavra 'prazer' sugerir algo banal: sem dúvida, ela é menos séria do que a palavra 'sério'. Dizer que um poema nos é extremamente agradável parece, de alguma forma, uma afirmação crítica menos aceitável do que pretender que o consideramos moralmente profundo". Ainda assim, por mais cheio de intenções que eu possa ser, sei que cada leitor é um leitor, e que as leituras são diferentes. Isso é também riqueza. Tanta riqueza, que nos dá a oportunidade de fazermos canais no YouTube ou blogs como este para compartilharmos nossas leituras (aliás, assim como cada leitor é um leitor, cada leitura é uma leitura). Este aqui é apenas mais um texto de um leitor que tem um blog e acesso, internet e decidiu compartilhar um pouco cheio de metáforas como funciona seu processo de leitura. Por fim, voltando ao dilema da curta vida que temos diante de todos os livros que queremos ler, podemos voltar os olhos para outra perspectiva, e aceitar sem desesperos que a riqueza de nossas leituras se faz tanto dos livros que lemos quanto dos livros que gostaríamos de ler. A intenção de ler já é, por si só, valiosa. Mais vale uma leitura bem feita durante meses do que dez durante um mês. O prazer é a base sobre a qual construiremos o que o texto tem a oferecer.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Falando sobre Katherine Mansfield (e Virgínia Woolf)

Katherine Mansfield e Virgínia Woolf .


   As minhas últimas leituras de 2016 foram todas de escritoras. Duas de minhas prediletas, aliás: Virgínia Woolf e Katherine Mansfield. Há mais coisas em comum as duas do que apenas o estilo: conheceram-se e foram amigas; trocaram correspondências e críticas sobre suas escritas. Em dado momento, Virgínia confessou: "Eu tinha inveja de sua escrita. A única coisa que já invejei"; por outro lado, Katherine confessava: "Eu me sinto orgulhosa da escrita de Virgínia". Aos fãs de Virgínia que ainda não conhecem a prosa de Katherine, imaginem aí o peso de ter uma qualidade invejável por Virgínia Woolf. Entretanto, esta inveja não era, para Woolf, imagino, uma forma de rivalidade: ambas tinham suficiente consciência sobre as questões feministas que brotavam em suas épocas  - e em suas escritas - para não caírem no jogo da rivalidade. Uma presava bastante a opinião a outra: Antonio Bivar cita, no prefácio de O quarto de Jacob editado pela Editora Novo Século, que uma das críticas mais ferrenhas a Noite e Dia veio de Mansfield, comparando a escrita do romance a Jane Austen, quando esperava, após se decepcionar, que Virgínia era capaz de uma prosa mais "autêntica": e foi então que, trancada num quarto por nove meses (uma gestação!), Virgínia deu à luz O quarto de Jacob, seu primeiro romance experimental, iluminado pelo fluxo de consciência.

   Ambas as mulheres vivenciaram doenças crônicas, tiveram relações complexas com maridos editores e sentiram-se ambivalentes em relação à falta de filhos, como registravam em seus diários. Mas foram realmente seus esforços literários compartilhados que ascendeu a amizade. Na verdade, depois de passar um fim de semana com Katherine, Virginia comentou que era "muito curioso e emocionante que nós duas, tão diferentes uma da outra, fôssemos quase a mesma coisa". Em resposta, Katherine escreveu "Meu Deus, eu adoro pensar em você, Virginia, como minha amiga. [...] Considere o quão raro é encontrar alguém com a mesma paixão por escrever que você tem e que deseja ser escrupulosamente verdadeiro como você."

   Para além de citar as coincidências entre minhas últimas leituras do ano passado, este texto pretende explorar um pouco da escrita de Katherine Mansfield especificamente. Ainda assim, retornar à Virgínia Woolf em algum momento talvez seja necessário: alguns contos de Mansfield dialogam em certos aspectos com alguns romances de Virgínia. 
   
   Pois bem. Katherine Mansfield eram neozelandesa, mudando-se para Inglaterra ainda nova. Chegou a passar algum tempo na Alemanha, onde encontrou escopo para a escrita de alguns contos. Sua escrita chegou ao Brasil em 1940 pela tradução de Érico Veríssimo com a coletânea de contos Felicidade; A partir de então, após sua repercussão, outras editoras trouxeram novas coletâneas e outras seleções de contos da autora. Ano passado, uma de minhas leituras foi a seleção promovida pela L&PM sob o título de Os Melhores Contos de Katherine Mansfield, com tradução da maravilhosa Denise Bottman, que compartilhou parte do processo de tradução aqui

   Esta edição publicada pela L&PM traz nove contos da autora, selecionados pelo tradutor Guilherme da Silva Braga: "Prelúdio", "Euforia", "Psicologia", "Aula de canto", "A vida de Mã Parker", "O desconhecido", "A festa ao ar livre", "A casa de bonecas", "A mosca" e "O canário".

   Mansfield é uma contista de literatura psicológica (seu conto "Psicologia" é de certo modo uma introdução que ela faz de seu próprio estilo). A literatura psicológica é caracterizada pela imersão nas razões das escolhas, ações e motivos dos personagens. Enquanto o ambiente sociocultural é equivalente nos outros tipos de escrita, e a perspectiva é externa ao personagem, na literatura psicológica há uma perspectiva interna, íntima do personagem criado. Tenta-se explorar a consciência do personagem. O fluxo de consciência, de Woolf, e o estilo de Katherine são grandes exemplos deste gênero.

    Como poucos contistas, Katherine tem a habilidade de suspender em seus contos as nuances psicológicas de seus personagens em momentos de leve desconforto; estas nuances aparecem em nível subentendido, e mesmo a esse nível, formam o plano de fundo dos contos, como se seus personagens estivessem sempre num limiar delicado de ordem e desordem, caindo sempre, à conclusão dos contos, na desordem, no desconforto de seus sentimentos frente às situações. São esses estados psicológicos que cruzam e fecham os contos, deixando nós, leitores, sozinhos, abandonados tal qual os personagens diante das sensações que são expostas diante de acontecimentos em maior parte corriqueiros dos costumes europeus em fins de 1800 e primeiras décadas de 1900.

   Seus contos tem uma narrativa equilibrada entre a sobriedade dos atos e o floreio cuidadoso dos sentimentos. O conto, enquanto gênero, parece ter uma estrutura própria para acomodar o que pretende a autora: não há muito o que dizer, o que fazer, o que resolver diante do que se quer mostrar, que é a sensação acontecendo e paralisando seus personagens.

   Um de seus contos mais famosos, e que intitula a maior parte das coletâneas publicadas no Brasil, chama-se "Bliss". Alguns tradutores trazem o termo para o português como "Felicidade" ou "Êxtase ou "Euforia". Acontece que, curiosamente, bliss é uma dessas palavras sem tradução direta equivalente para o Português. O que resta, então, é o trabalho do tradutor de manter sua originalidade na tentativa de traduzir para o mais próximo possível o termo do contexto do enredo. "Bliss", trata de um dia na vida de Bertha Young, que sente, aos 30 anos, um imenso e inexplicável sentimento de euforia (ou felicidade, ou êxtase), como se tivesse engolido um pedaço do sol, e sua luz brilhasse dentro do peito. Bertha, como Mrs. Dalloway, dará uma festa à noite, e o conto acompanha todo o conjunto de preparativos para a festa. Mansfield tem um tratamento cirúrgico no cuidado com seus enredos: ao nos dar uma personagem radiante no início do conto, ela nos surpreende com um desfecho triste, trágico, sem pena alguma de suas personagens, numa verdadeira forma de amassar com violência na mão uma rosa delicada, por quem nutrimos afeição.

   Há outros tantos contos memoráveis nessa coletânea. Um de meus prediletos é "A Casa de Bonecas". Nele, Mansfield escancara as diferenças das classes sociais em seus mínimos detalhes: as crianças Burnell, filhas de uma família rica, ganham uma casa de bonecas imensa, com móveis em miniatura, representando uma casa de verdade. A lamparina no centro da sala é um dos detalhes mais encantadores do presente, de tão realista, apesar de sua miniatura. As crianças levam a notícia para a escola, e todas as meninas de suas classes são convidadas para verem a casinha, menos as irmãs Kelvey, que são pobres e por isso a mãe das Burnell impediu que elas as levassem para dentro de suas propriedades; o conto termina quando as Burnell, por teimosia e inocência infantis, insistem em deixar as Kelvey entrar para ver a casinha, sendo pegas de surpresa pela mãe, que espanta as meninas como quem espanta galinhas. Katherine, em sua engenhosidade, mostra que a dureza da mãe se deu mais pela notícia trágica que houvera recebido naquela manhã do que por raiva mesmo das meninas Kelvey, a quem ela expulsou aos pontapés. O jogo das relações, ainda assim, estava feito: as meninas Kelvey não precisavam saber que foram expulsas porque a mãe das Burnell apenas tinha tido um mal dia. Suas condições estavam estampadas em suas roupas aproveitadas que os vizinhos doavam em caridade, e na profissão de seus pais. Ao menos, entretanto, conseguiram ver a lamparina que ficava na sala da casinha.

  Os outros contos exploram ainda as questões femininas, as relações de poder e o patriarcado. Mansfield tem uma prosa gostosa de ser lida. É certamente uma boa leitura também para os fãs de Virgínia Woolf, e sua relação com a amiga demonstra o orgulho pela ancestralidade que outras mulheres certamente sentem ao identificar em si os princípios de apoio que Katherine e Virgínia tinham uma pela outra, atingindo, além de si mesmas, as próprias mulheres em geral.


Para quem se interessar, há abaixo sites interessantes (alguns em inglês) onde é possível encontrar mais informações sobre Mansfield e sua relação com Virgínia Woolf:



   

   

sábado, 31 de dezembro de 2016

Os anos, de Virginia Woolf, e O Prazer do Texto, de Roland Barthes


   Para Roland Barthes, em O Prazer do Texto, há uma diferença entre o texto de prazer e texto de fruição. O texto de prazer é "aquele que contenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável de leitura (BARTHES, 1996, p. 20-21). E o texto de fruição é "aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta [...], faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise sua relação com a linguagem". (BARTHES, 1996, p. 21).

  Virgínia Woolf (1882 - 1941), em Os Anos (1937), chega com precisão ao auge daquilo que passou a construir desde O quarto de Jacob (1922): um estilo novo de escrita, que tinha a pretensão de explorar os meandros, as profundezas da psicologia dos personagens, dos costumes de sua época, das relações de gênero e de classes guiados por um fluxo de consciência, na qual a perspectiva principal da narrativa se encontra não no desenvolvimento clássicos das histórias, mas nas partículas que envolvem ao mesmo tempo os pequenos atos, as sensações e as falas de seus personagens - sejam eles pessoas ou cachorros. Diferencio aqui ato e fala por serem coisas diferentes, exatamente por conta das sensações: Virgínia, entre outras coisas, expõe em seus personagens o ato que segue a sensação mais do que a fala, os atos-falhos.
   
   Em Os Anos, que inicialmente durante sua criação tinha como título The Pargiters, acompanha durante cinco décadas (1880 a 1930) as transformações da família Pargiter. São eles os personagens que irão sofrer as ações de cinquenta anos de um mundo que passará por guerra, por transformações  sociais e tecnológicas ( a partir dos anos que se seguem depois de 1900, Virgínia já usa a imagem dos autômatos, objetos que simbolizaram enorme revolução tecnológica e filosófica na virada do século, para descrever comportamentos humanos). Também demonstra com uma habilitante imensa as falhas de comunicação, que poderá ser confundida pelo leitor como falta de atenção da autora, quando representa o exato contrário: temos, entre os intervalos de anos que representam cada capítulo da obra, personagens que se contradizem em seus discursos. Embora tenha como núcleo central a família Pargiter, o romance apresenta também muitos outros personagens sem muita importância para a continuidade do romance, embora tenham grande importância para acontecimentos específicos de capítulos únicos, depois dos quais nunca mais serão mencionados, o que revela também o jogo social de relações modernas, refletindo fatos de nossa vida social como nós a experimentamos, onde uns e outros vão ficando para trás, esquecidos como peças já não importantes.

    Por essas características, Os Anos não é um livro de fácil leitura. É preciso, como Barthes diz, uma atenção redobrada que só um texto de fruição é capaz de proporcionar (é mais fácil encontrar ver alguém lendo John Green num ônibus barulhento do que Virgínia Woolf): o número extenso de personagens, suas mudanças, que são aspectos de grande importância fenomenológica no romance, e sobretudo a exposição ao nível "atômico" dos sentimentos e dos costumes que Virgínia Woolf desmascara para o leitor, desde passagens em que um dos irmãos Pargiter, Martin, observa um tanto ébrio depois de uns goles de vinho as ruas e nota com surpresa como as pessoas se acostumaram rápido aos carros motorizados, e o quanto era aquilo engraçado no início, quando poucos saíam as ruas dirigindo automóveis ao invés de carruagens, até passagens como o capítulo referente a 1914, eclosão da Primeira Guerra Mundial, onde os Pargiter, personagens da alta classe londrina, não parecem interessados em questões políticas, expressando provavelmente uma real ignorância a esses aspectos por parte das classes ricas em meio a sua ascensão. Só nos capítulos seguintes, dois anos depois, é que, imersos nas consequências da Guerra, há a passagem em que eles mencionam numa conversa a tentativa de debater sobre a vida de grandes personalidades, embora confessem não conseguir fazê-lo por ignorância.

   Há, por outro lado, passagens valiosas onde seus personagens vislumbram as ações do tempo, que passa sem pedir licença. Parafraseando outra escritora, esta brasileira, Lispector, que enquanto viva fora comparada a Virginia Woolf, "pelo orgulho de estar viva" as personagens de Os Anos se sentem naquele impulso natural de dar continuidade as suas condições existentes, vislumbrando diante disso enormes inseguranças:

"De novo foi possuída pela sensação de estar à bordo. (Do que? De um navio? Da vida?) [...] As coisas não podem continuar indefinidamente, pensou. As coisas passam, as coisas mudam, pensou, os olhos postos no teto. Para onde vamos? Pra onde? Para onde...? As mariposas voejavam loucas, loucas. O livro caiu no chão. [...]  Depois fez um esforço, virou-se e soprou a vela. A escuridão reinou." (p. 254)

ou

"Já não sou uma criança, pensou, os olhos na luz sob sua cápsula azul. Os anos nos transformam; destroem coisas, amontoam coisas, aborrecimentos, cuidados. Ali estavam os seus de novo. Frases soltas lhe vinham outra vez à memória; e cenas. Viu-se outra vez fazendo subir o estore de um repelão; viu os pelos no queixo da Tia Warburton.  Viu as mulheres no ato de se levantarem num só movimento e os homens entrando pela porta em fila indiana. Suspirou ao virar-se no leito. Todos se vestem mesma maneira, pensou, e tem a mesma vida. E qual a vida certa, pensou irrequieta, dando voltas na cama, e qual a errada? E virou-se para o outro lado." (p. 323)
    
   Para Barthes, a leitura é um jogo entre escritor e leitor - sem público, a obra morre antes de nascer - e o prazer do texto (prazer do texto e texto de prazer são coisas distintas) se dá num "espaço" entre o texto e o processo de leitura por parte do leitor, onde, dentro deste "espaço" pode brotar as infinitas formas de recepção do texto por aquele que lê, que será sempre um leitor diferente dos outros leitores, e que nesses "espaços" encontrará afetações infinitas vindas do texto. Virgínia Woolf, com sua técnica de fluxo de consciência consegue nos proporcionar incontáveis formas de sentir esse espaço declarado por Barthes, e o faz exatamente por "fotografar" partículas de sensações e costumes que nós, leitores, comumente sentimos e que por eles somos atingidos em nosso convívio cotidiano. Embora ela tenha escrito mais cinco livros, além de Os Anos, onde trabalha o fluxo de consciência (O quarto de Jacob, Ao Farol, Mrs. Dalloway, As Ondas e Entre os Atos), Os Anos é tido como o mais trabalhoso de todos para Virgínia durante seu processo de escrita, assim como, por resultado, se mostra aquele onde há um refinamento mais apurado de sua técnica.

   Por fim, decidi fazer um guia de personagens para quem se aventurar a começar a leitura de Os Anos. Buscando na internet. não encontrei guia ou orientação de leitura do romance, e amigos que tentaram ler o livro ou outros leitores em suas resenhas pela internet disseram desistir por não conseguirem acompanhá-lo (Barthes, em O Prazer do Texto, também tem algo a dizer sobre isso). Segue então um guia de personagens. Eles estão divididos por sequência de aparição no livro, bem como, entre parênteses há dicas de como identificá-los quando eles forem mencionados no texto. Os personagens mais frequentes naturalmente são aqueles com o sobrenome Pargiter. Para nível de curiosidade, decidi colocar a idade de cada personagem no primeiro capítulo, de modo que o leitor possa fazer as contas de suas idades nos capítulos seguintes:

Personagens:

1880
Coronel Aber Pargiter (patriarca)
Rose Pargiter (matriarca, falece no Cap. 1)
Eleanor Partiger (filha mais velha, 20 anos em 1880)
Milly Partiger (filha, 12 anos em 1880)
Delia Partiger (filha, 10 anos em 1880)
Morris Pargiter (filho mais velho, advogado)
Rose Pargiter criança (filha, entre 7 e 11 anos)
Martin Pargiter (filha, entre 7 e 11 anos anos)
Edward Pargiter (filho, apox. 18 anos)

Kitty Malone (prima dos Pargiter por quem Edward é apaixonado)

1891
Celia Pargiter (noiva de Morris Pargiter, o advogado)
Sir Digby Pargiter (irmão mais novo do patriarca dos Pargiter)
Eugénie Pargiter (noiva de Sir Digby, irmão do patriarca dos Pargiter)
Maggie Pargiter (filha de Eugénie e Digby)
Sara Pargiter (ou Sally, Filha de Eugénie e Digby)

1911
René/Renny (casa-se com Maggie Pargiter)
North, Peggy e Charles (filhos de Celia e Morris Pargiter)
Sir William Whatney (flerte de Eleanor)

1913
Crosby (Governanta dos Pargiter)

1914
Lady Lasswade (prima de Kitty Pargiter Lasswade)
Ann Hiller e Tony Ashton (participaram de um jantar de Sra. Malone em 1880)

1917
Nicholas (amigo gay polonês-americano de Eleanor)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A Single Man, novela de Christopher Isherwood, e sua adaptação cinematográfica por Tom Ford


A Single Man, 2009. Dirigido por Tom Ford.
 

George é um homem que perdeu o companheiro de dezesseis anos de convívio. Esta ideia dá espaço para que imaginemos o conflito do personagem.

Capas de A Single Man
George é um homem adulto, homossexual, vivendo no período da Guerra Fria, professor de Literatura. Este conjunto de elementos, somados a perda do companheiro, que foi o amor de sua vida - "você é um homem romântico, professor." -, poderia ser trabalhada de diversas formas no cinema.

Em "A Single Man", Tom Ford, enquanto diretor, consegue fazer eu conhecer o mais novo filme favorito de minha vida. O filme é a adaptação da novela de mesmo nome, de Christopher Isherwood, de 1964. Tom, enquanto diretor, desenha a iminente bomba que destruiria tudo de uma guerra que nunca explodiu às vias de regra, e isso nas entrelinhas da fala de um protagonista que discursa sobre o Medo ser sempre a maior ameaça. Esse mesmo Medo, que é grande e tem diversas facetas, foi que, à mentalidade dos anos cinquenta, fez com que a família de seu companheiro o privasse de ir ao seu funeral.

Descobrimos a dor de George mais por suas cenas, e pela atuação incrível de Colin Firth, do que pelos flashbacks de seus momentos com seu parceiro, enquanto ele estava vivo. Nos flashbacks, vemos que oito anos de luto não foram o suficiente para que Geoge se curasse, mas foram o suficiente para que ele decidisse o que deveria fazer da vida até então: encerrar a sua guerra fria particular, que ficava entre a falta de vontade de viver e o suicídio de fato, e passar a planejá-lo da forma mais virginiana possível: minunciosa, com cartas de instruções e de despedidas. É preciso, provavelmente, uma frieza adquirida apenas pela convicção em se matar para poder planejar tão detalhadamente a própria morte - não sujar os colchões, a posição com que atiraria em si mesmo, e a possível forma como cairia no chão. A angústia e a beleza, entretanto, dançam juntas na tela.

Este não é um filme dramalhão. Está mais para um lamento digno de uma bicha às portas da velhice, intelectualíssima, cuja toda força e coragem para viver  - "é hora de enfrentar mais um maldito dia" - se foi com a Segunda Guerra Mundial, com a nova Guerra Fria, e principalmente, com a morte de seu companheiro de dezesseis fucking anos de convivência e amor. Outras tantas coisas perturbam George: a beleza dos homens. Seus corpo, que afinal é vivo, ainda deseja, embora o desejo não seja tão grande quanto a perda das perspectivas.

Entre os homens, há um de seus alunos: Kenny, Todas as vezes que ele aparece, assim como todas as vezes que a câmera sai da figura de George, Tom aumenta o contraste das cores, e por alguns instantes o filme não tem mais a temperatura fria e melancólica. Kenny me parece a figura do jovem, do novo, do ingênuo, da, mesmo que clichê, esperança. E está apaixonado por George, seu professor. Talvez seja o fio de vida, a pulsão do que ainda resta para viver e descobrir de vida que faça George não dispensá-lo como dispensa todos os outros rapazes. E é também Kenny que, como um símbolo enganoso, uma armadilha tanto para George quanto para o espectador, engana as nossas expectativas quanto ao destino de George, quanto a sua iminente morte, irrefreável: se George não morrer suicidando-se, morrerá de um ataque do coração. George morre, afinal, como se espera. "Tudo é exatamente como deveria ser": e o que deve ser, aqui, não é sua morte, mas antes dela, e também após, sua ligação sublime a seu companheiro morto, que vem resgatá-lo ao final do filme, numa cena, como todas as outras, linda, linda, linda. "A Single Man" também um filme sobre como seguir com a vida, e como transformar as relações, quando se é imposta pela morte a necessidade de transforma-las; é sobre a perda de um companheiro de dezesseis anos de convívio; e é de fato, sobre seu protagonista, George, ter estado só prolongando o próprio destino.